David Vélez, fundador do Nubank, fixou residência no Uruguai em 2022. Entenda os fatores que tornam o país mais atraente que o Paraguai para empresários de alto patrimônio, mesmo com custos fiscais mais elevados.
Em 2022, David Vélez, fundador e CEO do Nubank, deixou o Brasil após mais de uma década em São Paulo e fixou residência no Uruguai. O colombiano, cuja fortuna é estimada em US$ 15,5 bilhões, juntou-se a uma lista crescente de empresários latino-americanos que escolheram o pequeno país como base, incluindo Marcos Galperín, do Mercado Livre, e Martín Migoya, da Globant.
A escolha do Uruguai, e não do Paraguai, gera dúvidas entre brasileiros que avaliam mudança de residência fiscal. Afinal, o Paraguai oferece custos mais baixos e tributação territorial igualmente favorável. Por que, então, empresários de alto patrimônio optam pelo vizinho mais caro?
Antes de qualquer conclusão precipitada, é fundamental entender o que cada país oferece, e para qual perfil de investidor.
Em entrevista ao Pipeline Valor Econômico em 2022, Vélez afirmou que o principal motivo da mudança foi segurança. No Uruguai, onde o Nubank não opera, ele obtém um anonimato difícil de conseguir no Brasil.
“O trabalho remoto abriu essa possibilidade de estar em outro país, mas nos mantendo a apenas duas horas de voo do Brasil e perto das nossas famílias em outros países da América do Sul”, declarou Vélez na ocasião.
Quando questionado sobre os benefícios fiscais uruguaios, o empresário descartou esse fator como determinante: “Isso não faz sentido uma vez que vou doar 100% do meu dinheiro e o Brasil vai ser o grande recebedor disso, via filantropia.” Vélez e sua esposa, a peruana Mariel Reyes, são signatários do The Giving Pledge, compromisso de doar a maior parte de sua fortuna em vida.
Ambos os países adotam o sistema de tributação territorial, o que significa que, em regra, apenas a renda gerada dentro do território nacional é tributada. Para quem tem patrimônio e investimentos no exterior, esse modelo representa economia significativa em comparação ao sistema brasileiro de tributação universal.
A diferença está no que cada país oferece além da questão tributária.
O Uruguai é chamado de “Suíça da América do Sul” por combinar estabilidade institucional, segurança jurídica e previsibilidade econômica. O país lidera rankings regionais de democracia, baixa corrupção e qualidade de vida.
Em junho de 2020, o governo do presidente Luis Lacalle Pou editou o Decreto 163/020, que flexibilizou os requisitos para obtenção de residência fiscal. O decreto criou duas novas formas de qualificação: investimento em imóveis acima de aproximadamente US$380.000 (com presença mínima de 60 dias por ano) ou participação em empresa acima de US$1,7 milhão que gere pelo menos 15 empregos diretos.
O principal atrativo para novos residentes fiscais é o chamado “tax holiday”: isenção de impostos sobre rendimentos de fonte estrangeira por um período de 11 anos (o ano de obtenção da residência fiscal mais 10 anos). Após esse período, a alíquota sobre rendas estrangeiras passa a 12%, ainda assim inferior às taxas brasileiras.
O Uruguai também não tributa heranças de bens localizados no exterior, um fator relevante para planejamento sucessório de famílias de alto patrimônio. Além disso, o país possui acordos para evitar a dupla tributação com 13 países, incluindo Alemanha, Espanha, Portugal, Suíça, Argentina e México.
O Paraguai atrai principalmente pelo custo reduzido e pela simplicidade. O processo de residência é mais rápido, a burocracia menor, e o custo de vida em Assunção é cerca de 30% inferior ao de São Paulo. O país também não cobra imposto sobre heranças.
A tributação territorial paraguaia é igualmente vantajosa para quem tem investimentos no exterior. A Lei 6.380/2019 estabeleceu o sistema atual, com alíquota corporativa de 10% (IRE) e progressividade de até 10% para pessoa física (IRP) sobre rendas de fonte paraguaia.
No entanto, o Paraguai apresenta limitações: menor número de acordos internacionais, infraestrutura menos desenvolvida, e indicadores sociais inferiores aos uruguaios em áreas como saúde, educação e segurança pública.
| Critério | Uruguai | Paraguai |
|---|---|---|
| Sistema tributário | Territorial + tax holiday de 11 anos | Territorial |
| Alíquota após isenção | 12% sobre renda estrangeira | Até 10% (IRP) |
| Imposto sobre herança exterior | Não | Não |
| Acordos de bitributação | 13 países | Limitados |
| Custo de vida | Superior a São Paulo | 30% inferior a São Paulo |
| Investimento mínimo (residência fiscal) | ~US$ 380.000 + 60 dias/ano | Requisitos mais flexíveis |
| Estabilidade institucional | Líder regional | Estável, menor infraestrutura |
| Infraestrutura financeira | Avançada | Em desenvolvimento |
| Segurança pública | Alta | Moderada |
| Perfil ideal | Alto patrimônio, planejamento sucessório | Custo reduzido, simplicidade |
Para empresários com patrimônio na casa dos bilhões, a economia de alguns pontos percentuais em tributação pode ser menos relevante do que outros fatores:
Segurança jurídica: O Uruguai mantém há décadas alternância democrática, respeito às decisões judiciais e baixa interferência política na economia. Em um continente onde reformas tributárias e mudanças regulatórias são frequentes, essa previsibilidade funciona como um “seguro institucional”.
Infraestrutura financeira: Montevidéu e Punta del Este concentram escritórios de gestão de fortunas, private banking internacional e estruturas jurídicas sofisticadas para planejamento patrimonial e sucessório.
Tratados internacionais: A rede de acordos de bitributação do Uruguai é mais ampla, o que facilita operações com Europa e outros mercados.
Qualidade de vida: O Uruguai foi reconhecido em 2025 como o país com melhor qualidade de vida na América Latina pelo índice Numbeo. O PIB per capita de US$18.958 é mais que o dobro da média regional.
O Paraguai pode ser mais adequado para perfis diferentes: empresários que priorizam custo operacional baixo, profissionais autônomos que trabalham remotamente, ou investidores que não necessitam de estruturas complexas de planejamento patrimonial.
Para quem busca flexibilidade sem necessidade de presença física prolongada, o Paraguai oferece requisitos de permanência mais simples. O país também tem investido em infraestrutura digital e atração de indústrias, posicionando-se como hub tecnológico regional com energia hidrelétrica barata.
É importante esclarecer alguns pontos que geram confusão:
Não é evasão fiscal. A mudança de residência fiscal é um mecanismo legal (elisão fiscal), desde que feita com planejamento adequado, comunicação de saída definitiva à Receita Federal brasileira e cumprimento das obrigações do novo país.
Não é automático. A residência fiscal é independente da residência legal (migratória). Obter residência legal no Uruguai ou Paraguai não significa automaticamente deixar de ser contribuinte no Brasil.
Não é para todos os perfis. A saída fiscal faz sentido para quem tem rendas de fonte estrangeira significativas, patrimônio internacional ou flexibilidade geográfica. Para quem tem renda predominantemente brasileira, os benefícios podem ser limitados.
Em agosto de 2025, Vélez vendeu aproximadamente US$432 milhões (R$2,3 bilhões) em ações do Nubank. Posts em redes sociais alegaram que ele teria “economizado R$500 milhões em impostos” por morar no Uruguai.
A informação é parcialmente incorreta. Segundo verificação do Projeto Comprova, o motivo principal da não tributação no Brasil não foi a mudança de país, mas sim o fato de que as ações vendidas eram da Nu Holdings Ltd., holding registrada nas Ilhas Caimã, não de uma empresa brasileira. Mesmo que Vélez ainda morasse no Brasil, essa operação específica não seria tributada no país.
Em outras palavras: a estrutura societária do Nubank, com holding no exterior, é o fator determinante nesse caso específico, não a residência fiscal do fundador.
A escolha entre Uruguai e Paraguai não é apenas fiscal. Envolve análise de perfil patrimonial, necessidades de infraestrutura financeira, prioridades familiares e objetivos de longo prazo. Para empresários do porte de David Vélez, a combinação de segurança pessoal, estabilidade institucional e sofisticação financeira do Uruguai justifica o custo mais elevado.
A informação precisa é o primeiro passo para qualquer decisão. Decisões tomadas no calor da notícia raramente são as melhores.
Bloomberg Línea — “Por que o bilionário David Vélez não mora mais no Brasil”, setembro de 2022
Pipeline Valor Econômico — “Por que David Vélez se mudou para o Uruguai”, 2022
Decreto 163/020 — Poder Executivo do Uruguai, junho de 2020
Uruguay XXI — Guia do Investidor, Acordos Internacionais
A Comunicação da Unlocked Consultoria Migratória é responsável pela produção e curadoria de conteúdos informativos sobre imigração, vistos, cidadania, mobilidade internacional e planejamento migratório. Nosso objetivo é traduzir temas complexos do direito migratório em informações claras, atualizadas e confiáveis, ajudando brasileiros a tomar decisões seguras sobre seus projetos internacionais. Todo o conteúdo é desenvolvido com base em fontes oficiais, legislação vigente e na experiência prática da Unlocked em processos migratórios para os Estados Unidos, Europa e outros destinos.